domingo, 13 de julho de 2014

SOBRE A RIVALIDADE ENTRE BRASILEIROS E ARGENTINOS E AS DIFERENÇAS SOCIOCULTURAIS QUE ALIMENTAM PRENCONCEITOS




Por Giezi Alves de Oliveira


Chegamos ao final da copa do mundo. Não. Não chegamos ao hexacampeonato, chegamos ao fim do evento. Mas não quero falar da derrota da nossa seleção para a Alemanha, nem para a Holanda. Quero falar sobre a rivalidade entre Argentinos e Brasileiros e o que ela revela. Há quem diga que essa rivalidade é histórica. Alguns especialistas afirmam que ela remonta ao Tratado de Tordesilhas e que de lá para cá essa peleja vem se intensificando com as disputas esportivas, principalmente no futebol.

É um erro generalizar comportamentos sociais de uma determinada comunidade, região ou país sem correr o risco de ser injusto ou preconceituoso. Alimentar essa rivalidade entre argentinos e brasileiros não faz sentido. Ou faz? A verdade é que essas disputas acabam revelando, em alguns casos, preconceitos socioculturais arraigados no ser humano. Tais prenoções se baseiam em generalizações negativas a respeito da maneira de ser, falar, agir e pensar do outro.

Ao discorrer sobre o modo de vida de um povo, atribui-se a ele, geralmente, características ligadas ao seu aspecto físico ou comportamental: é belo ou feio, é sábio ou ignorante; é honesto ou desonesto, é humilde ou arrogante, fala certo ou fala errado, em sua própria língua materna etc. A partir dessas comparações, algumas pessoas costumam definir um caráter universalizante e que às vezes beiram ao ridículo. O fato é que basta uma experiência ruim, em algum lugar, e com alguém, que o preconceito aflora. Ora, assaltantes, golpistas, vagabundos e pessoas honestas existem em toda a parte do mundo.  Mas devemos ter em conta que pessoas honestas são infinitamente superiores às desonestas.

As marcas culturais são normalmente o gatilho para as disputas pelo primeiro lugar na cadeia alimentar humana. Basta voltar as nossas atenções para dentro do nosso próprio território nacional e perceber que as rivalidades regionais são visíveis e normalmente alimentadas pela ignorância e pelo ego inflado de alguns poucos financeiramente "privilegiados". É claro que preconceitos não se resumem às classes dominantes. Ela brota de discussões acaloradas como, por exemplo, aquela gerada por um publicação do jornal britânico The Sunday Times, em que o pesquisador James Watson, renomado cientista e ganhador do Prêmio Nobel pela descoberta da estrutura do DNA, afirmava que africanos seriam menos inteligentes que os ocidentais e, por isso mesmo, declarava-se pessimista em relação ao futuro da África (PARADELA; PEREIRA; ANDERS; AGOSTINHO; FIGUEIREDO; PAIVA, 2008). Tal afirmação gerou desconforto e motivou discussões em torno da dualidade genética x inteligência e sua relação com o racismo. O referido artigo, consequentemente, despertou sentimentos eufóricos sobre ética, discriminação, xenofobia, intolerância, sectarismo etc.  

Mas a mídia, e em grande medida a redes sociais, têm suas fatias de responsabilidades. Elas também alimentam, em certa medida, a discriminação, a hostilidade, a implicância, a intolerância e a rejeição direta ou indiretamente. Pode-se verificar isso nas postagens em redes sociais, nas piadas e nos comentários acerca de nordestinos, mineiros, gaúchos, cariocas, paulistas, amazonenses etc. Isso não seria diferente em se tratando de estrangeiros e aqui está incluída a Argentina, para não falar daqueles países em que certo presidente definiu como “eixo do mal”.

Alguns humoristas também têm suas parcelas de responsabilidades na divulgação de preconceitos, contudo as piadas criadas já são resultantes de uma discriminação instituída na sociedade e isso não seria motivo, por exemplo, para organização de uma cruzada contra humoristas, afinal é função deles provocarem o riso ou o escárnio. De certo modo, não descartaria a ideia de que blogs, sites e redes sociais mereçam um pouco mais de atenção no que concerne ao trabalho educativo com relação ao compartilhamento de certas postagens, tal como ocorrido em relação às piadas de cunho racista e que já se tornaram sem graça. Ninguém mais ri de piadas sobre negros, talvez pela força que as leis impuseram, mas também devido a influência da ideia do politicamente correto.

Longe de querer ser o paladino da justiça social, creio que o pior nisso tudo, na minha visão, que também e limitada, é a “síndrome de vira-lata” de muitos brasileiros quando se trata de comparar comunidades, povos e nações e passam a reproduzir a ideia mesquinha, intolerante e invejosa de alguns poucos.  É aqui que um dos preconceitos mais perniciosos contra a própria cultura emerge como um gênio da lâmpada do mal. Influenciados também pela opinião pública, as pessoas acabam por se referir aos europeus e americanos (USA) como povo de cultura superior e à América Latina (isso inclui o Brasil) como "raça" inferior e ignorante. Isso pode ser comprovado na discussão que agora surge sobre a contratação de um técnico estrangeiro para comandar a seleção brasileira. Afinal, somos tão incompetentes assim?

Não é difícil conhecer gente que sonha morar no exterior e desfrutar de todas as benesses que existem por lá, mas quando realizam esse sonho, alguns logo passam a sonhar também com o retorno à sua cidade natal e o interessante disso tudo é que o mesmo ocorre com alguns estrangeiros que visitam o Brasil.

Por ocasião desta copa, turistas revelaram, em pesquisa, que morariam no Brasil. Muitos deles, ao comparar a sua cultura com a nossa, estranharam de maneira positiva o nosso way life e até demonstraram o desejo de contrair matrimônio com brasileiras. Segundo pesquisa do Data Folha, 95% dos estrangeiros aprovaram a hospitalidade dos brasileiros. A pesquisa demonstrou ainda que nove a cada dez entrevistados eram da opinião de que os brasileiros são simpáticos e receptivos.

Vários jornalistas e torcedores estrangeiros, que estiveram nas cidades sedes da copa, afirmaram suas satisfações com a copa sediada no Brasil. Suas impressões foram registradas em matéria publicada, por exemplo, no jornal globo online (G1): “Apresentador da CN23, em Buenos Aires, Pablo Alonso, se diz admirado com a receptividade do brasileiro”.

Segundo o G1, em Belo Horizonte torcedores belgas, Marc e Stephan Peerans, que ficaram três dias na capital mineira, afirmaram o seguinte: “Antes de vir pra cá, recebemos vários alertas para tomar cuidado com assaltos e violência. Mas até agora está tudo maravilhoso. As pessoas são muito atenciosas e educadas — disse Marc.”

Como podemos perceber, ideias e atitudes são divulgadas e generalizadas ao redor de todo o mundo, fruto de imagens veiculadas na mídia, ou por alguma outra via, criando uma espécie de terror cultural de uma nação para outra, todavia o contrário também ocorre.

Mas não vamos aqui ser ufanistas e afirmar que tudo em nosso país, região, ou cidade são maravilhas. Bons exemplos de organização, educação, urbanismo e projetos políticos e sociais devem ser benvindos, mas analisados segundo nossa cultura, afinal educação não se impõe, ela é ensinada e em boa medida adquirida pelo exemplo, como aquele dos torcedores japoneses recolhendo o próprio lixo nos estádios.

A copa do mundo no Brasil permitiu uma reflexão bastante positiva acerca de nosso comportamento perante estrangeiros e do comportamento de estrangeiros perante a nossa cultura. Isso nos faz perceber que nada nos dá o direito de subjugar nossos semelhantes por questões socioculturais, nem muito menos generalizar comportamentos negativos. A copa do mundo sempre fará aflorar o espírito nacional e isso é salutar. Assim, acredito que disputas esportivas são saudáveis até certo ponto, mas nenhuma é inocente. Amor à pátria é importante, mas não deve ser alimentado com arrogância, prepotência e ufanismo, ao ponto de negar o norral de conhecimentos e de cultura alheia. Pra frente Brasil!    


Referência

PARADELA, Eduardo Ribeiro; PEREIRA, Marcela Saldanha; ANDERS, Quézia Silva; AGOSTINHO, Luciana de Andrade; FIGUEIREDO, André Luís dos Santos; PAIVA, Carmen Lúcia Antão. Poderiam os fundamentos da evolução humana e da genética desfazer discussões entre "raça" e "inteligência"?. In: Âmbito Jurídico, Rio Grande, XI, n. 57, set 2008.